01 setembro 2005

Era uma vez...

Completei inha primeira nesga de vida. É certo que já vivi dezessete anos, mas esta década a que me refiro foi a primeira que registrei de fato.
Não me recordo de muitas coisas que antecederam esse período, somente momentos em família e brincadeiras prazerosas...Nesse tempo, já não me supreendia quando as coisas que já eram coisas antes que eu reconhecesse-as como tal deixaram de ser úteis e, algumas, de existirem também.
Nesse sentido, o sistema mudou um pouco. Não houve, por exemplo, a mesma indiferença de outrora quando tive de jogar fora o par de meias, comprado com tanta alegria, só porque agora cada uma delas cotem uma dúzia de furos. Fui outro também ao rebaixar à condição de pijama aquela camiseta que o suado dinheirinho, fruto do trabalho na bomboniere, trouxe ao meu convívio, só porque agora tem uma mancha de café, modesta para mim e espetacular aos olhos alheios. Isso para não falar do boné, guerreiro samurai que finalmente se rendeu, ou do relógio, lindo para aquela menina especial, mas que pediu licença por tempo indeterminado.
Falo aqui somente das coisas porque, desculpem-me a ignorância, nunca pude acompanhar a vida inteira de alguém. Por isso, penso que o que sentimos quando uma pessoa – que já estava aqui quando viemos à luz – finalmente se aposenta de viver não é propriamente compaixão, como o que sentimos por algo cuja existência compreendemos totalmente. Na verdade, é uma espécie de medo misturado com revolta, pois o ser em questão, de um modo ou de outro, tinha um papel em nossas vidas que muitas vezes se igualava a uma cargo cujo concurso de admissão requisita características que somente aquele ocupante apresentava, sendo impossível que se encontre alguém para ele.
Fora esse sentimento, toca-nos o íntimo somente a falta, ou antefalta, daquilo que compreendemos perfeitamente(as mulheres são outra história). E por esse pequeno motivo, vejo que termino o primeiro capítulo da minha vida, fechando-o ao ver a bota, comprada conscientemente há alguns anos, que acabou de descolar seu solado.

Luis Gustavo D. Pereira

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