29 outubro 2009

Cap I

Era de se esperar que Jamile não fosse ficar em casa naquele dia. Tinha muitas coisas para resolver, inclusive sobre a sua vida profissional. O sofá, as pipocas, televisão e filmes não eram, definitivamente, uma opção. Pensando nisso, colocou uma roupa de cotidiano, apanhou sua carteira, celular e notebook e saiu de casa, tomando cuidado para fechar todas as possíveis entradas, inclusive a que lhe causou grande problema aquela vez.

Cruzou a avenida, olhando para aquelas vitrines de coisas que nunca seriam suas e nem de pessoas sensatas, pois quem mais no mundo usaria um chapeú de guachini? Rindo de seus pensamentos, entrou na livraria onde passava a maior parte de suas tardes. Era seu lugar, seu templo, onde, contraditoriamente, poderia se desligar do mundo sabendo mais sobre ele. Arnaldo, o vendedor-quase-dono do lugar, cumprimentou-a, elogiando a mudança que fez no cabelo. Era a terceira vez em duas semanas que ele fazia, surpreso, essaa observação. Ela, como sempre, retribuiu gentilmente o elogio. Não se incomodava com a falta de memória do velho amigo. Achava engraçado e até dava certo valor, pois, dessa forma, sabia que era um produto genuíno daquela alma sábia, sem ser somente cumprimento das regras de conduta às quais estamos acostumados.

Enconstou-se em seu puf amarelo, que já a conhecia desde a época em que seu falecido pai a levava até la, quando lhe ensinava que, no univero inteirinho, a única riqueza que não podem levar de nós está apenas em dois lugares: na nossa própria mente e no nosso próprio coração. Mesmo lembranças assim não deixavam a jovem Jamile triste, pois sentia o carinho de seu genitor em cada um dos cantos daquele lugar.

Com um lance de braço, pegou o volume de "História Mundial", um livro grande - quase quatro bíblias colocadas em duas colunas e duas linhas, brincava- e ricamente ilustrado. Era o mesmo da outra vez, aquele que Jamile colocara atrás dos outros exemplares para sempre poder ler sem danificar os que seriam comprados por outra pessoa. Viu no celular que tinha parado na página 232 e logo foi até lá, mergulhando num de seus assuntos favoritos: O povo Celta. E ali ficou passeando nas imagens e gravuras, imaginando se um dia conseguiria realmente descobrir o que significava aquele pingente em pedra sabão que ganhou do estranho homem com chapéu azul-royal.

16 outubro 2009

Procura-se respostas...

Por que não?
confiar em vez de condenar;
prosseguir em vez de desistir;
valorizar em vez de se acomodar?


Por que não?
fraternar em vez de constranger;
Conversar em vez de punir
Perdoar em vez de vingar?

Por quê não?
Construir em vez de cobrar;

Viver em vez de sonhar?


Por quê não?
"Nós" em vez de "eu"...

Luis Gustavo D. Pereira

13 outubro 2009

Conhecimento seguro e mecanização mental

Aqui no Brasil sabe-se que no sistema de educação, pelo menos no público, não temos, em geral, senão um meio – muitas vezes ineficaz – de transmissão de informações. E somente isso, salvo raríssimas exceções. É como se educar pudesse ser resumido apenas em guardar dados e nada mais.

Somente são passadas as informações que certos interesses julgam como úteis, mesmo que não o sejam de fato. E, como se não bastasse, costuma-se ensinar de modo que o “pensar”, o “raciocinar” e o “ser crítico” tornam-se algo difícil, desgastante, que só se deve fazer para cumprir uma obrigação de momento inventada por terceiros, sendo a aplicação cotidiana desses pontos indiretamente desestimulada. Talvez essa situação seja interessante para aqueles que preferem que tal configuração não se modifique por ser muito perigoso para suas atuais posições que o pensamento e acrítica alheia existam de forma contundente.

Sempre nos fizeram acreditar que vivemos numa democracia; pelo que se infere disso, o povo teria direito de decidir o modo com que as coisas no seu país vão se desenvolver. Mas como fazer valer a própria vontade se não se sabe com propriedade o que aconteceu no passado? Como fazê-lo se não se cultiva a cultura de estar em dia com os acontecimentos no país? E como ser participante incisivo, se o senso crítico é justamente moldado pelos dois fatores anteriores, geralmente bem enfraquecidos? Do modo com as coisas estão, não se consegue mentes suficientemente abertas para, analisando o passado e comparando-o com o presente, ajustar os meios para que se tenha um fim que realmente corresponda ao que se quer.

O que se vê é que não se tem o interesse de formar um real cidadão, um ser humano pleno em todas as suas potencialidades mentais e sociais. E, para que isso não fique muito aparente, distribui-se conhecimento, mas só o do tipo seguro: aquele que sempre existirá, independentemente do tipo de pessoa que o tenha. E a sociedade em si vem valorizando tanto essa pequena parcela de sabedoria que ela toma o status de algo grandioso, insuperável, o bastante para se viver. É verdade, sim, que tais saberes são muito importantes, mas, pela estrutura da sociedade atual, vê-se que não é essencial que se lhes saiba decoradamente, pois o acesso à informação está mais irrestrito do que nunca e continua a ser cada dia mais facilitado.

Eficaz e importante, outrossim, seria desenvolver adequadamente a capacidade de análise e decisão, inerentes ao ser humano, visando que este saiba onde buscar informações mais específicas quando necessário e que aplique-os da forma mais coerente possível. Infelizmente, vemos justamente o contrário no nosso dia-a-dia: profissionais que fazem o que pensam, mas não pensam no que fazem, e acabam por usar “informação engessada” onde ela deveria se moldar às circunstâncias e à situação onde deveria ser empregada.

Esse costume tem grande incentivo no método de seleção utilizado pela maioria das universidades para admitir seus discentes, os nossos futuros profissionais. Ainda se preza muito o acúmulo de informações e resolução de situações já tão massificadas que estão disponíveis, de várias maneiras, em cursinhos, simulados virtuais, etc. Ainda não se faz, na maioria dos casos, uma análise realmente criteriosa da capacidade do aspirante-a-aluno de desenvolver raciocínios em diferentes universos de idéias, de acordo com suas aptidões naturais.

Mas, caso se coloque em prática essas pequenas mudanças, nosso país seria de todos, e não somente de alguns, o que faria com que parte desses “alguns” deixasse de ter bandeira-branca para portar-se arbitrariamente frente às suas responsabilidades em relação ao nosso país sem efetivas reprimendas morais e judiciais. E não podemos esperar algo novo nesse sentido a curto prazo, pois a ignição de um novo tempo na educação depende essencialmente desses poderosos.

Perguntando a qualquer chefe de família brasileiro, encontra-se o desejos que o clima interno da nossa nação melhore nesse sentido, mas é justamente no seio familiar que toda essa situação se inicia. Encontra-se frequentemente certa “incoerência subentendida”, pois é presente a cultura de se promover, no próprio lar, comportamentos mecânicos, instintivos. A prova disso é responder “porque não e pronto” quando um filho pergunta o porquê de não poder fazer algo, em vez de utilizar tais oportunidades para ensiná-lo a analisar os fatos e fazer com que ele próprio possa entender e quiçá concordar o real motivo do bloqueio.

Para que qualquer projeto tenha sucesso, é necessário que seus mentores dominem o “saber”, o “pensar” e o “agir” de forma bem burilada. A grande massa infelizmente ainda está e continuará por considerável tempo em débito com esses dois últimos.

08 outubro 2009

Continuar...

[Escrevi este bem antes da reviravolta de entrar na FAB, um pouco antes de sair do SENAI de bicicleta, num dia não muito amistoso, e levar em torno de 40 min até chegar em casa. É-me de singular representação, pois a lembrança que encerra traz também muita gratidão por tudo o que tem acontecido.]

"O tempo era duro,
Com suas diárias batalhas...
Eu tentava construir um futuro
Juntando dos sonhos as migalhas...

O dia estava feio
E mandava fina garoa errante.
No coração, um simples anseio...
Fora dele, somente o frio cortante...

Mas havia uma chama a arder,
Sabida e não vista por todos os folclores...
Era a esperança a prometer
A chegada de dias melhores...

Então, mesmo com um pouco de estresse
No frio, eu caminhava sozinho...
A chama cresceu, fiz uma prece...
Alegrado, segui mais quentinho."

Luis Gustavo D. Pereira

De volta, de novo...

Ufa!

Enfim as coisas da vida me permitiram voltar em definitivo ao prazer de escrever e de compartilhar algumas idéias que de vez em quando surgem na mente. Acredite, é bem presente a alegria de voltar para este velho caderno virtual. É como se, numa imensa biblioteca, alguém conseguisse achar um antigo livro de anotações, lembrando-se de como estava a vida enquando produzia os escritos ali guardados. No meu caso, estava bem diferente. Mas igualmente importante. Assim, permito-me a volta com alegria, com a vontade não mais devolver este pequeno escrínio mental ao local onde estava.
Obrigado por compartilharem essa alegria comigo!

Estejam em paz!

Luis Gustavo D. Pereira