Aqui no Brasil sabe-se que no sistema de educação, pelo menos no público, não temos, em geral, senão um meio – muitas vezes ineficaz – de transmissão de informações. E somente isso, salvo raríssimas exceções. É como se educar pudesse ser resumido apenas em guardar dados e nada mais.
Somente são passadas as informações que certos interesses julgam como úteis, mesmo que não o sejam de fato. E, como se não bastasse, costuma-se ensinar de modo que o “pensar”, o “raciocinar” e o “ser crítico” tornam-se algo difícil, desgastante, que só se deve fazer para cumprir uma obrigação de momento inventada por terceiros, sendo a aplicação cotidiana desses pontos indiretamente desestimulada. Talvez essa situação seja interessante para aqueles que preferem que tal configuração não se modifique por ser muito perigoso para suas atuais posições que o pensamento e acrítica alheia existam de forma contundente.
Sempre nos fizeram acreditar que vivemos numa democracia; pelo que se infere disso, o povo teria direito de decidir o modo com que as coisas no seu país vão se desenvolver. Mas como fazer valer a própria vontade se não se sabe com propriedade o que aconteceu no passado? Como fazê-lo se não se cultiva a cultura de estar em dia com os acontecimentos no país? E como ser participante incisivo, se o senso crítico é justamente moldado pelos dois fatores anteriores, geralmente bem enfraquecidos? Do modo com as coisas estão, não se consegue mentes suficientemente abertas para, analisando o passado e comparando-o com o presente, ajustar os meios para que se tenha um fim que realmente corresponda ao que se quer.
O que se vê é que não se tem o interesse de formar um real cidadão, um ser humano pleno em todas as suas potencialidades mentais e sociais. E, para que isso não fique muito aparente, distribui-se conhecimento, mas só o do tipo seguro: aquele que sempre existirá, independentemente do tipo de pessoa que o tenha. E a sociedade em si vem valorizando tanto essa pequena parcela de sabedoria que ela toma o status de algo grandioso, insuperável, o bastante para se viver. É verdade, sim, que tais saberes são muito importantes, mas, pela estrutura da sociedade atual, vê-se que não é essencial que se lhes saiba decoradamente, pois o acesso à informação está mais irrestrito do que nunca e continua a ser cada dia mais facilitado.
Eficaz e importante, outrossim, seria desenvolver adequadamente a capacidade de análise e decisão, inerentes ao ser humano, visando que este saiba onde buscar informações mais específicas quando necessário e que aplique-os da forma mais coerente possível. Infelizmente, vemos justamente o contrário no nosso dia-a-dia: profissionais que fazem o que pensam, mas não pensam no que fazem, e acabam por usar “informação engessada” onde ela deveria se moldar às circunstâncias e à situação onde deveria ser empregada.
Esse costume tem grande incentivo no método de seleção utilizado pela maioria das universidades para admitir seus discentes, os nossos futuros profissionais. Ainda se preza muito o acúmulo de informações e resolução de situações já tão massificadas que estão disponíveis, de várias maneiras, em cursinhos, simulados virtuais, etc. Ainda não se faz, na maioria dos casos, uma análise realmente criteriosa da capacidade do aspirante-a-aluno de desenvolver raciocínios em diferentes universos de idéias, de acordo com suas aptidões naturais.
Mas, caso se coloque em prática essas pequenas mudanças, nosso país seria de todos, e não somente de alguns, o que faria com que parte desses “alguns” deixasse de ter bandeira-branca para portar-se arbitrariamente frente às suas responsabilidades em relação ao nosso país sem efetivas reprimendas morais e judiciais. E não podemos esperar algo novo nesse sentido a curto prazo, pois a ignição de um novo tempo na educação depende essencialmente desses poderosos.
Perguntando a qualquer chefe de família brasileiro, encontra-se o desejos que o clima interno da nossa nação melhore nesse sentido, mas é justamente no seio familiar que toda essa situação se inicia. Encontra-se frequentemente certa “incoerência subentendida”, pois é presente a cultura de se promover, no próprio lar, comportamentos mecânicos, instintivos. A prova disso é responder “porque não e pronto” quando um filho pergunta o porquê de não poder fazer algo, em vez de utilizar tais oportunidades para ensiná-lo a analisar os fatos e fazer com que ele próprio possa entender e quiçá concordar o real motivo do bloqueio.
Para que qualquer projeto tenha sucesso, é necessário que seus mentores dominem o “saber”, o “pensar” e o “agir” de forma bem burilada. A grande massa infelizmente ainda está e continuará por considerável tempo em débito com esses dois últimos.
Um comentário:
eu não conhecia isso. gostei!!!
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