Hoje estive analisando algumas passagens na minha vida (ainda que tenha vivido pouco) e cheguei à conclusão que tenho saudades dos tempos de primário em que eu realmente completava um ano escolar, embora não tenha repetido ano algum até este momento.
Era muito bom estudar seriamente todos os dias e, chegada a prova, saber o assunto em questão e não somente decorá-lo mecanicamente, para esquecê-lo logo após o teste. E cada vez que a professora iria divulgar os resultados, fazia-se um suspense infernal até que ela chegasseao meu número e à minha nota. E, por falar em nota, desde essa época eu tenho um trato para comigo e com o mundo: tirar, no mínimo, oito, no que quer que fosse. Isso obedece ao seguinte raciocínio: Sendo que do começo dos estudos até o dia da prova com certeza haveria tempo razoável para estudos e eliminação de dúvidas e que os professores sempre cobram nas avaliações o que deram em sala, não seria racionalmente certo ter dúvidas logo no dia do "juízo proval", o que me obrigaria a tirar sempre dez. Optei pelo oito porque poderia haver algum engano, uma frase lida errada, uma ilusão de ótica, um meteoro caindo bem em cima da última questão da prova ou coisas do gênero. Isso explica o fato de eu ter chorado copiosamente quando aconteceu meu primeiro sete-e-meio. Somando todo esse esforço do ano, era uma imensa alegria ver a palavra "PROMOVIDO" escrita no boletim final. Isso firmava e confirmava a certeza de um ano realmente completo.
Tempos bons que ficaram no passado, pois, desde que me tornei ( entenda-se me tornaram) vítima da progressão continuada, convivo com duas situações que prejudicam muito o prazer de estar num sistema esforço-recompensa como a escola.
Uma delas é que, ainda que continuasse com o mesmo pacto sobre as notas, estas teriam o mesmo brilho de outrora, pos ir para a série seguinte já não dependia mais delas em grande parte. Sendo assim, todos os esforços para aprender eram considerados banais pelos próprios estudantes. Não que eu também tivesse mudado, mas isso afetava, de certa forma, a qualidade das aulas e fazia com que os que ainda quisessem aprender algo, como eu, fossem reduzidos ao mínimo frupo dos nerds, cdf's e coisas do gênero. A outra situação é que desde então são raros os professores que realmente se sentem estimulados a ensinar, a ver cabecinhas trabalhando e depois aplicar uma prova séria , que teria resultados verdadeiros.

Nisso, há um certo desespero porque podem acontecer dois fatos. Primeiro: as dúvidas não pararem de crescer. E segundo, que é mais amargo ainda: as dúvidas não existirem. Digo isso porque as dúvidas, na verdade, surgem quando estamos sendo levados através de um certo raciocínio e fica uma lacuna entre o que já entendemos e o que está sendo passado no momento; é quando fazemos uma pergunta. Mas como ter dúvidas, se nem ao menos "pensar" alguns docentes nos estão fazendo hoje? Isso é mais preocupante do que as dúvidas em si, porque não sabemos o que realmente deveríamos buscar saber...coisa de louco, mas acontece!
Assim, as questões existentes, junto com não pensadas vão se acumulando, acumulando, acumulando até que o aluno caia em si e veja que seu próprio futuro se transformou em um verdadeiro ponto de interrogação gigantesco. Mas aí, é muito difícil reverter o quadro.
Por tudo isso, tenho saudades das tias e dos tios do primário, que simbolizam um período realmente bom e eficaz no ensino do nosso país, pelo menos para mim. O "estudar" de hoje não tem o mesmo peso, tanto intelectual quanto sentimental, como de antes, o que tem feito e ainda vai fazer com que um monte de jovens mintam inconscientemente. Provo pelo meu caso, que, mesmo quando estiver com o diploma de "ensino médio completo" em mãos, mentirei se ousar dizer que tenho, de fato, o "ensino médio completo". É socialmente comprovado, e eu sei comigo, que ainda levaria, no mínimo, mas um ano de estudos para realmente merecê-lo.