Era de se esperar que Jamile não fosse ficar em casa naquele dia. Tinha muitas coisas para resolver, inclusive sobre a sua vida profissional. O sofá, as pipocas, televisão e filmes não eram, definitivamente, uma opção. Pensando nisso, colocou uma roupa de cotidiano, apanhou sua carteira, celular e notebook e saiu de casa, tomando cuidado para fechar todas as possíveis entradas, inclusive a que lhe causou grande problema aquela vez.
Cruzou a avenida, olhando para aquelas vitrines de coisas que nunca seriam suas e nem de pessoas sensatas, pois quem mais no mundo usaria um chapeú de guachini? Rindo de seus pensamentos, entrou na livraria onde passava a maior parte de suas tardes. Era seu lugar, seu templo, onde, contraditoriamente, poderia se desligar do mundo sabendo mais sobre ele. Arnaldo, o vendedor-quase-dono do lugar, cumprimentou-a, elogiando a mudança que fez no cabelo. Era a terceira vez em duas semanas que ele fazia, surpreso, essaa observação. Ela, como sempre, retribuiu gentilmente o elogio. Não se incomodava com a falta de memória do velho amigo. Achava engraçado e até dava certo valor, pois, dessa forma, sabia que era um produto genuíno daquela alma sábia, sem ser somente cumprimento das regras de conduta às quais estamos acostumados.
Enconstou-se em seu puf amarelo, que já a conhecia desde a época em que seu falecido pai a levava até la, quando lhe ensinava que, no univero inteirinho, a única riqueza que não podem levar de nós está apenas em dois lugares: na nossa própria mente e no nosso próprio coração. Mesmo lembranças assim não deixavam a jovem Jamile triste, pois sentia o carinho de seu genitor em cada um dos cantos daquele lugar.
Com um lance de braço, pegou o volume de "História Mundial", um livro grande - quase quatro bíblias colocadas em duas colunas e duas linhas, brincava- e ricamente ilustrado. Era o mesmo da outra vez, aquele que Jamile colocara atrás dos outros exemplares para sempre poder ler sem danificar os que seriam comprados por outra pessoa. Viu no celular que tinha parado na página 232 e logo foi até lá, mergulhando num de seus assuntos favoritos: O povo Celta. E ali ficou passeando nas imagens e gravuras, imaginando se um dia conseguiria realmente descobrir o que significava aquele pingente em pedra sabão que ganhou do estranho homem com chapéu azul-royal.
29 outubro 2009
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Um comentário:
passei e li
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